Apenas e só, mais uma roda da engrenagem

    

 Durante muito tempo dei voltas e mais voltas à massa cinzenta, à procura de uma explicação… uma explicação lógica, entenda-se… porque isto de sermos pura e simplesmente todos uns incompetentes não é verdade. E não é verdade, sobretudo, em relação a todos e não em relação a tudo. Então qual o interesse de manter e deixar sedimentar cada vez mais o status quo?

        Porquê não dar uma boa formação que para além de completa, de “excelência”, garantisse a entrada no mercado de trabalho? Não só a entrada mas também a continuação, um percurso sem interrupções, um percurso que não fosse uma montanha russa.

       Porque é que quando acabamos o ensino básico não temos habilitações para o que quer que seja? Como é possível que os professores digam com toda a naturalidade “só o 9º ano não te serve para nada!”? Se o ensino é obrigatório então pressupõe, obviamente, que a continuação deveria ser voluntária. Será voluntário continuar a estudar, não por vontade, não por gosto, mas porque as alternativas são todas muito precárias?

       E seguimos para o secundário. Mas quando terminamos o secundário continuamos sem habilitações para um mercado de trabalho que vá para além dos call centers, do balcão de uma loja de um qualquer centro comercial, de uma qualquer “baixa”, para além de mais uns recibos verdes, ou seja, para além de mais um qualquer trabalho precário… Mas quantos de nós não tinham continuado a estudar para fugir a isso tudo? O que é que nos ensinaram nesses três anos? Ensinaram-nos? Ou mais uma vez foram-nos pondo aos molhos dentro de salas para que lá fora fossem menos a “criar confusões”?

       E seguimos para o ensino superior. Mas já não vamos confiantes. E passamos o curso com dor de barriga ou não pensamos nisso e vamos levando com as cadeiras que apenas são mobília da casa. E vamo-nos perguntando vezes sem conta “para que serve isto?”, “porque é que dão isto assim??”. E passamos às cadeiras e vamos esquecendo. Para não ficarmos mais agoniados, para não ficarmos mais deprimidos. E chegamos ao fim. E porque é que uma percentagem cada vez maior de nós, que decidimos entrar num curso superior, para ter uma melhor formação e melhores perspectivas de emprego, chega à conclusão que apenas adiou por 4 ou 5 anos a entrada para o qualquer call center e afins e a entrada para as consultas de psiquiatria por causa de uma depressão? Não era suposto que o ensino fosse “superior”? Superior a quê? Ensino? Ensinaram para quê? Ensinaram?

       Porque é que vamos ter que continuar a depender dos nossos pais? E os que não têm pais? E quando os pais se reformarem? E quando os pais morrerem?

       Porque é que o orçamento para a educação é definido como um custo, e como um custo que é, na conjuntura actual, deve ser cortado… porque temos que cortar nos custos… Porque manda o Sr. Défice. Mas porquê? Mas porque é que o Sr Défice manda que o percurso escolar dos portugueses seja uma tragédia grega que acaba no centro de emprego? É com esta enorme massa de desempregados e empregados temporários, precários, deprimidos e frustrados, que o país evolui?

       Não. Mas interessa que assim seja, porque se assim não fosse não haveria desempregados, ou pelo menos não tantos. Não haveria quem concorresse a empregos com “habilitações excessivas”. Não existiriam pessoas com o secundário, com uma licenciatura, com um mestrado, que aceitassem (muito menos procurassem) um emprego diferente daquele para o qual estudaram, um emprego que não oferece qualquer tipo de estabilidade, qualquer garantia do que vai acontecer amanhã, qualquer perspectiva de carreira. Porque não seríamos mão-de-obra descartável, a ganhar quase nada, a fazer render muito a muito poucos.

       E porque esses muito poucos, por enquanto, controlam muito mais quem controla o Sr Défice, o ensino, na verdadeira acepção da palavra não existe, ou existe muito pouco e para muito poucos, a educação é um custo e a escola é uma fábrica de empregados precários em série.

       A precariedade do trabalho tem muitas raízes. O sistema de ensino de hoje, como precário que é, é uma delas. A “empregabilidade” é apenas mais uma frase publicitária para vender cursos ou para nos convencer que Bolonha (a Escola-empresa, a venda do ensino, o comando do mercado nas escolhas da investigação, etc.) é a solução. Uma formação completa seria muito mais do que isso: a estimulação da nossa capacidade crítica, o despertar constante para a realidade que se vai construindo à nossa volta, o encorajamento para combater o conformismo, o não aceitar das coisas como elas são, só porque sim, o não ser, apenas e só, mais uma roda da engrenagem. 

Diana Curado

M.A.T.A. Movimento Anti “Tradição Académica” 

5 Respostas to “Apenas e só, mais uma roda da engrenagem”

  1. Carol Says:

    Concordo inteiramente, Diana. Sou professora e, infelizmente, do nosso lado é muito difícil mudar o sistema, pois sempre que fugimos um pouco ao currículo para falar da realidade e fazer a ponte entre as duas coisas temos desde problemas de tempo em cumprir programas a pais e alunos tacanhos que preferem as aulas como cópia do manual.
    Falta nesta reflexão a parte igualmente complicada que é da vida que se perde em tanta formação, que não permite crescer, conhecer, experimentar e que vai criando uma quantidade incrível de eternos adolescentes, incapazes de adquirir responsabilidades e autonomia.

  2. eremita Says:

    Bem visto. Ensino A VALER e não para entreter.

  3. Patrícia Says:

    Partilho contigo este sentimento de frustração. Sou licenciada em Sociologia, terminei o curso em Julho de 2006 e ainda não consegui arranjar emprego. Na escola, na faculdade, deixam-nos sonhar com aquilo que poderiamos vir a ser, mas a realidade cá fora é completamente diferente.
    Estou contigo.

    Patrícia

  4. liesbeth Says:

    Boa tarde, este foi um dos textos em português mais lúcidos que li nos ultimos tempos. Desejo-vos muita energia para mudar as coisas.

    Liesbeth,

    Bruges, Bélgica

  5. Sílvia Says:

    Ao ler este texto senti que não estou só, que não sou a única que vê a realidade. Neste momento é raro eu “tocar” neste assunto na minha vida social, pois colocam-me o rótulo de “péssimista”.E a verdade é que cansei de lutar contra o Sistema…percebi que não vale nada tentar mostrar a nossa criatividade, dinâmica, senso critico, o nosso papel enquanto participantes activos numa sociadade,hoje considero isto uma utupia.Já terminei a Licenciatura fez 3 anos em julho de 2007, no 1º ano, ainda com esperança fiz todos os possíveis para encontar emprego na minha area, no 2 ano apercebi-me que só com “conhecimentos” se vai lá…Este ano lá vou parar a um call-center mais perto…ou loja…E sentir a cada vez mais a frustação… e porque a espera não paga as nossas contas…tenho que agarrar o que aparece em 1º lugar… A minha esperança é tentar juntar algum dinheiro para sair do país, pois se é para trabalhar em empregos não qualificados vou para fora…pelo menos o ordenado minímo não é 403 euros…A minha energia para mudar mentes está a chegar ao fim, e por incrível que pareça este País começa a fazer-me sentir inútil…

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