Jogar de pretas – O meio jogo

por Fritz

A maior crítica feita a este tipo de movimentos, que são já quase tão globais como a anti-globalização, é que só sabemos jogar de pretas. Esperamos pelas directivas europeias para as analisar minuciosamente e recorrendo à utopia e irreverência inata pintamo-las de meia dúzia de máscaras pré-fabricadas já conhecidas e odiadas por tod@s e apostamos no antagonismo difuso. Infelizmente, o antagonismo difuso ainda não passou por aqui.  

 

Jogar de pretas, por muito que possamos criticar, já valeu boas vitórias e não devem ser esquecidas. No entanto, hoje em dia, revela-se insuficiente como barreira aos avanços perpetuados por uma direita neoliberal, desprovida de valores e pudores, ajudada por uma esquerda dividida, confusa e na grande maioria, conivente. Franco Berardi num texto abaixo publicado, fala do Março francês como a abertura de uma nova fase da história social da Europa, como a revelação de que há vida para além da escravatura neoliberal. Falta apenas dizer que apesar da derrota de Villepin, na próxima final estará muito provavelmente Sarkozy ou Ségolène, de novo a jogar de brancas, de novo com os trunfos na mão, a jogar exactamente o mesmo jogo até que ganhe. Se há vida e luta, ela só acorda à força, com as barricadas já muito recuadas, assustada pelo barulho triunfante da marcha do opositor.

Jogar de pretas é hoje um produto de franchising, tão apelativo como o MacDonalds, tão global como a Nike. A Adidas adora a nossa paixão por Bob Marley ao ponto de “lhe” dedicar uma camisola, as H&M vibram com a histeria freak da nossa adolescência. Dentro em breve haverá jogos de Playstation anti-capitalismo, anti-Bush até. Não nos enganemos a pensar que houve um segundo sequer desses anúncios de tv que não tenha sido escrupulosamente concebido com a intenção de atingir o maior número de pessoas e com as imagens e sons adequados e estudados para que nós gostemos deles. O MacDonalds é bom, sabe bem, funciona. Funciona porque é feito para o mundo onde está, o Maccapitalista responsável perguntou primeiro o que precisávamos e fez dinheiro com o que nós não queríamos ou não tínhamos tempo de ir buscar ao supermercado. Agora, a mesma pessoa dita o que há no supermercado à nossa espera porque nós não soubemos pedir melhor. Agora vamos ao supermercado e temos 5 embalagens diferentes de pão para hambúrguer, enquanto isso fechou a padaria da esquina. Fechou porque nós não a quisemos? Não, fechou porque nós não podíamos. Para a tal escravidão neoliberal funcionar em pleno não basta que haja um fast-food em cada rua e um anuncio em cada intervalo publicitário, tem também de haver um trabalho onde só temos 30 minutos de pausa para almoço, um supermercado onde não há talho mas sim carne embalada, uma alimentação que se resume aos pratos que vemos nos filmes, uma vida que não nos permite a audácia da criatividade. Se as férias não fossem só 22 dias por ano os resorts do Allgarve teriam um sério problema de facturação, temos mesmo que trabalhar dia e noite durante 340 dias para estarmos tão cansados e alienados que acabamos por gostar daqueles sítios onde tudo é igual, onde se compra tudo já feito. Se um dia percebermos que fomos longe demais na nossa apatia, perante aqueles que nos querem de novo como Chaplin na fábrica, esperemos que quando esse dia chegar a nossa padaria ainda esteja aberta.  

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Se queremos que alguma coisa vinda desta máquina produtiva funcione a nosso favor, temos de olhar para o produto sem olhar à finalidade que lhe foi imposta, temos de inverter o rumo da sociedade de consumo que se revela na procura de bens para satisfação de necessidades que não provêem de desejos mas sim de imagens repetidas que, essas sim, se apropriam do nosso pensamento. O mercado é que nos consome a nós de cada vez que nos usa para vender mais umas t-shirts do Che ou umas mortalhas que até são de papel de cânhamo. Inverter esta tendência passa por inverter este mercado, usá-lo a nosso favor passa por rejeitar o que vemos e produzir o que desejamos. Passa pela criação de novos pontos de fuga que não venham nem possam vir de uma loja, passa por um esforço cognitivo no sentido de dar vida ao tal cadáver chamado de arte e renovar a concepção de criatividade. Uma caneca com um design inovador só o é até que se venda a sua patente ao IKEA, momento no qual ela entra no espectáculo da abundância capitalista até que se torne a caneca que todos usamos de manhã porque é a mais barata, da loja mais acessível. No fundo, a apropriação da máquina produtiva do estado já foi feita e não foi pelas pessoas mas sim pelas grandes empresas. Eles já mandam mais do que qualquer governo pois mantêm o desemprego no “nível certo” da curva. Os governos são hoje meros intermediários entre o patronato e o trabalhador que se limitam a fingir que estabelecem as tais regras de mediação quando a verdade é que estão reféns da acção das empresas em todos os âmbitos, até mesmo no da formação profissional onde o estado está subjugado à tarefa de arranjar os “números” que eles querem com as apetências que eles precisam. Hoje em dia, é o rato que escolhe o queijo que quer comer e ainda nos manda a nós ir ordenhar a vaca. 

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Passar ao ataque é mais do que protestar, é mais do que gritar, é até mais que boicotar. Passar ao ataque é organizar, é ter no quotidiano a alternativa. Passar ao ataque é também descortinar o aproveitamento agressivo do marketing do séc. XXI do qual já não escapamos nem nos transportes públicos, é mostrar contra isto a possibilidade e viabilidade dos projectos autónomos. É, no mayday e fora dele, mostrar que não queremos nem precisamos do “reconhecimento profissional” e da “remuneração compatível com a responsabilidade da função” que nos prometem em troca de uma vida já standardizada mas também denunciar que o El Dorado prometido só pode albergar meia dúzia e que o barco prefere mandar uns ao mar do que afundar. É mostrar que renunciamos a uma educação que já não é escola mas sim linha de montagem na qual só as melhores peças vão para o mercado. Passar ao ataque não é espalhar mais frases poéticas, passar ao ataque é renunciar ao mercado e às suas regras.

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